'Pastor Cláudio': assassino da ditadura relembra seus atos em filme nos cinemas


(Imagem: divulgação ArtHouse)

Pelo tom não exaltado da conversa entre os dois homens que aparecem em cena durante o documentário ‘Pastor Cláudio’, em cartaz num circuito reduzido de poucas salas em cidades do Brasil a partir deste final de semana, parece até que estão tratando de um tema banal. A frieza é o primeiro aspecto que salta aos olhos neste filme dirigido por Beth Formaggini, no qual o ex-delegado Cláudio Guerra narra a Eduardo Passos, psicólogo e ativista dos Direitos Humanos, os assassinatos que cometeu sob as ordens da ditadura militar.

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Hoje pastor evangélico na cidade de Vitória (ES), Guerra olha para o passado de forma brutalmente franca. Munido de uma bíblia à tira-colo, adereço que fez questão de utilizar durante a filmagem, ele detalha o procedimento das execuções e incinerações de perseguidos políticos, muitos deles cujos corpos foram reduzidos às cinzas e ocultados de suas famílias.

Sem alterar o tom de voz, fala sobre como, “por curiosidade”, abria os sacos plásticos que chegavam a ele com as vítimas. Mais adiante, repassa o assassinato da estilista e ativista Zuzu Angel, cometido para parecer um acidente automobilístico para conter uma voz que incomodava o governo.

Decisões como essa, conforme seu relato, eram tomadas como se fossem apenas negócios. Cláudio Guerra justifica seus atos dizendo que apenas cumpria ordens. “Era uma mula”, diz. Mesmo assim, deixa transparecer uma satisfação pelo que chama de tempos de glória, quando não apenas era respeitado e temido, mas também acumulava riquezas, uma contrapartida por servir um objetivo também compartilhado não apenas com a elite econômica da época, mas também por autoridades dos EUA e da Inglaterra, segundo ele. Tudo para conter um suposto avanço comunista, bandeira similar à utilizada por Jair Bolsonaro e seus asseclas antes, durante e depois das eleições presidenciais de 2018.

Instigado por Passos, o hoje pastor Cláudio reconhece que muitas das estratégias da ditadura, como a tortura e a perseguição, continuam presentes até hoje. Comparar as notícias recentes sobre milícias, e seus tentáculos que alcançam até os altos escalões do poder, com os registros de grupos chamados de Esquadrão da Morte, como o Scuderie Le Cocq (ativo principalmente nos anos 60), basta para ter a noção de que tal cenário ainda é real.

Na linguagem visual escolhida pela cineasta para construir o documentário, as imagens se sobrepõem ao rosto do antigo algoz, impregnando-lhe de sua própria história. O mesmo acontece com o Brasil a cada vez que relatos como o dele ganham a luz:  são verdades inescapáveis e dolorosas, formando a identidade de uma nação que ainda não acertou totalmente as contas com o passado.

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