Kondzilla lança 'Sintonia' com um olhar jovem da periferia de São Paulo


Sintonia retrata a favela de São Paulo (Foto: Reprodução/Instagram@netflixbrasil)

Por Sté Reis (@estefreis)

Subir a Praça Onze, o coração da favela Vila Nova Jaguaré, é uma experiência intensa. Funk, forró e igrejas são vizinhas e coexistem entre gritos de pastor, fofocas na calçada e risadas altas. Os carros passam por entre as ruas estreitas, enquanto as motos estralam o motor anunciando que chegou o final de semana. A comunidade periférica na Zona Oeste de São Paulo virou cenário para a Vila Áurea, palco de ‘Sintonia’, série idealizada pelo Kondzilla que estreou na última semana na Netflix.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

Konrad Dantas, mais conhecido como Kond, divide a direção com Johnny Araújo, que já levou às telas grandes filmes do cenário musical, entre eles ‘O Magnata’, do Charlie Brown Jr., e ‘Legalize Já – A Amizade Nunca Morre’, sobre Marcelo D2 e Skunk.

Leia também

Kond explica que ‘Sintonia’ surgiu quando ainda morava na periferia do Guarujá. “Naquela época pensei que se fosse trabalhar algum dia com audiovisual, queria contar as histórias que ouvia, era muito observador na favela que eu cresci”.

“Mas o gatilho foi quando meu trabalho aqui em São Paulo começou a bombar muito, e por um período a mídia quis colocar a gente como culpado no caso do jovem que entra no crime para fazer aquisição de bens materiais. Não tenho nada a ver com isso. Estou registrando esse momento, essa passagem do funk ostentação. Aí fiquei pensando em como transformar essa energia negativa ao nosso favor.”


Favela é vida real

A forma que ele encontrou para dar uma resposta positiva às críticas foi o primeiro esboço da série, que contava a história de três garotos que buscavam caminhos diferentes para conseguir um tênis de R$ 1 mil. Um comprava falsificado, outro entrava para o tráfico e comprava dez pares e o terceiro conseguia com trabalho duro e no fim era roubado. A ideia cresceu, chegou na produtora Rita Moraes (que recentemente também produziu a bem-sucedida ‘Samantha’) e tomou a forma de seriado com algumas adaptações de roteiro.

Na nova versão, todos os personagens passam por algum trauma ou dificuldade na infância que os fazem tomar decisões que impactam diretamente sua adolescência e vida adulta. Nando (Christian Moraes) se envolve com o crime, MC Doni (que na vida real é o MC Jottapê) busca o sucesso como MC e Rita (Bruna Mascarenhas) é evangélica.

“A gente vem de periferia, então quando pegamos o roteiro, vimos que o universo estava próximo. Todo mundo tem um sonho, seja no crime ou crescer na igreja. É a vida real na favela”, comenta Christian. “A gente precisa entender que a periferia é vida real, que o cara é bandido. Mas que ele ama, que ele é um jovem de 18 anos que tem crise. Estereotipa quem não entende nada. Não somos a favor do crime, mas entendo porque o cara comete o crime, a gente entende o sistema. Tem que entender para transformar.”

Uma retrato jovem sobre a periferia de São Paulo

“As meninas são amigas dos manos, mas sabem se colocar para não dar confiança”, explica Bruna sobre a personagem. “Ela não sabe o que é feminismo, na favela a informação não chega como chega pra gente [restante da sociedade que vive na bolha]. A gente não levanta bandeira, mas é importante que ela esteja na igreja evangélica, existem pastoras que estudam o evangelho do ponto de vista da mulher. É uma forma incrível de ver, de quebrar padrões. Ela mostra que dá pra ser feminista sem ser feminista, correr atrás dos seus sonhos de uma forma igualitária.”

O funk, claro, é um dos pontos chaves da trama. “Sou MC, o personagem também, temos mesmas características de correr atrás do sonho. Acredito que a série vá ser bem recebida na periferia. Estão retratando a favela de São Paulo, vai chamar a atenção. O jeito é diferente, as gírias de São Paulo são diferentes.”

“É importante criar um lugar de reconhecimento”, comenta Christian. “Existe a favela do Rio, que já foi representada mundialmente, mas na capital paulista a gente não tinha referência. Nunca ninguém falou da favela de São Paulo como a gente, então fomos nossa própria referência.”

A produtora explica que essa representatividade foi pensada para dar um caráter original à produção. “A gente não trazer grandes nomes, e sim mostrar algo original, único, por isso não quisemos protagonistas famosos. Se a gente conseguir que as comunidades do Rio, São Paulo, Argentina, América Latina, façam essa adesão, a gente fez bem.”

Trilha sonora de Tropillaz, Tom Carfi e Kondzilla

Como se deve imaginar, a trilha-sonora da série teve as mãos da Kondzilla, que convidou o Tropkillaz para engrossar o caldo (André Laudz e Zé Gonzales, o Zegon). Além de emprestar a voz, o Jottapê também participou da criação de algumas músicas junto com o MC EZl. “A gente trouxe a galera que tá no TOP 50 do Spotify, foi brilhante a troca deles. A gente também licenciou Tom Carfi, a Harpa Cristã, buscamos caras famosos nessa cenas”. O primeiro clipe da série será lançado no canal do Kondzilla e a trilha estará em todas as plataformas de streaming. A primeira delas é “Te Amo Sem Compromisso”.

Sobre a lei do Proibidão, que veta a realização de bailes funk, Kond comenta de forma positiva.

“Essa lei existe há 40 anos, a lei do pancadão. É mais do mesmo, hoje a gente tem um pouco mais de força porque antes a gente ficava refém de programadora, rádio. No digital a gente tem essa oportunidade de opinar no que quer ouvir”, comenta o empresário.

“Uma vez estava na casa do Vik Muniz e ele me falou algo interessante. Sabe qual a uva mais doce? A que está vivendo a situação adversa de clima, de vento, então a uva começa a se esforçar para dar o melhor suco. Acho que isso acontece com a cultura também. Quando a gente está vivendo em um momento muito difícil, a gente sempre vai se encontrar através da arte como um meio de se manifestar. Essa repressão, acho que assim como na época da ditadura, trouxe os melhores discos da música brasileira. Não estou dizendo que estamos em ditadura agora, mas se houver uma repressão agressiva nesse nível, com certeza a arte vai se manifestar.”

This article is automatically posted by WP-AutoPost Plugin

Source URL:https://br.vida-estilo.yahoo.com/kondzilla-lanca-sintonia-com-um-olhar-jovem-da-periferia-de-sao-paulo-004256900.html

Leave a reply

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>